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Quem conta um conto

Bino acordou cinco minutos antes do despertador. Era segunda-feira, e chovia violentamente e o cão da vizinha latia como se estivesse a ser torturado. Bino ponderou sair logo da cama, ou ficar na ronha até ouvir o alarme. Decidiu-se pela primeira, e ergueu-se com vagar, calçou os chinelos e atravessou o frio corredor até à húmida cozinha. Nesta altura do ano, já era necessário acender a luz para efetuar tarefas tão simples como procurar um copo no armário, para o encher com água da torneira. Só que desta vez, em vez de água, a torneira cuspiu sangue. Bino esfregou os olhos, como quem ainda está ensonado, fechou a torneira e foi até ao quarto-de-banho, para se aprontar para a jornada laboral que se avizinhava. Enfiou-se no polibã, rodou o misturador da água para a posição intermédia, nem muito quente nem muito fria, e replicou o gesto que tantas vezes efetuou àquela hora. A cabeça do chuveiro expeliu sangue. "Gaita" — pensou Bino. "Que inconveniência."

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